Crônica da Família: O Marido da Prima do Meu Pai

Por Gil DePaula

RF2 Crônica da Família: O Marido da Prima do Meu Pai

Em 1959, meu pai abandonou as terras sergipanas, e veio para Brasília arriscar a vida na cidade nascente. No ano seguinte, eu, minha mãe e duas irmãs, que nasceram depois de mim, também viemos para o Distrito Federal, onde reunimos a família e fixamos residência na cidade-satélite de Taguatinga.

Nos anos seguintes, vários parentes e amigos, tomaram o mesmo caminho, desembarcando aqui, nas terras do planalto central. Um ramo da família do meu pai foi parar em Sobradinho, outra, das cidades-satélites de Brasília. Esse ramo da família tinha como matriarca, a saudosa tia Caçula (imagino que esse apelido se devesse, a ela ser a caçula da família).

Tia Caçula, era daquelas senhoras, que quando conversava com alguém, essa pessoa se sentia abraçada por sua voz, e aconchegada pela doçura de suas palavras. Ainda hoje, carrego com pesar, a conversa que tivemos na última vez em que a vi, quando um câncer já lhe ceifava a vida, e serenamente me disse, que havia um bicho comendo ela por dentro. Palavras, que até hoje me sensibilizam.

As três filhas de tia Caçula, se tornaram professoras e mais tarde, diretoras em colégios de sobradinho. Uma delas, a Nilza, morava em uma casa de frente para a casa de tia Caçula e, invariavelmente, quando íamos a Sobradinho, visitávamos as duas.

Nossa família, sendo bons sergipanos-nordestinos, sempre foi composta por pessoas tagarelas e que não medem (ou não conhecem) a altura de sua voz, e que a tudo respondem “na lata”. Essas características eram marcantes na prima Nilza, que aliava a elas, a rapidez ao falar.

O marido da prima Nilza, chamava-se Nonato. Ele era um homem magro, de altura mediana, negro da cor da graúna, extremamente calado e calmo.

Nessas reuniões familiares, enquanto todos se digladiavam, disputando a primazia de falar mais alto, Nonato permanecia em seu canto de forma tão estática, que parecia ele haver saído do corpo e estar em outro lugar. Eu, ainda menino, o observava, e cheguei a acreditar que Nonato fosse mudo.

Até um certo almoço, que ocorreu na casa deles, todos nós tínhamos a certeza que quem mandava na casa era a prima Nilza. Fato, que secretamente era ridicularizado pelos demais familiares, principalmente pelos homens, mas que logo seria desmentido.

No referido almoço, sentaram-se os adultos na mesa principal, e os mais jovens se acomodaram como puderam. Tal qual, eu disse anteriormente, a conversa, mesmo durante o pasto, fluiu intensamente, e a prima Nilza, rapidamente, desfilava suas histórias, sempre contadas em bom som. Entre elas, contava algumas histórias do marido, que a tudo escutando, permanecia impassível, aparentemente, preocupando-se, apenas, com a própria mastigação.

Não me recordo qual era a história e, em qual ponto nevrálgico, ela tocou. Entretanto, deve ter sido bastante contundente, pois, pela primeira, vez eu escutei Nonato falando. Primeiramente, ele levantou os olhos do prato (o que eu já estranhei), e quando nossa prima parou para respirar, ele, calmamente, sem levantar o tom de voz, disse: “Nilza, cale sua boca”. Ditas as palavras, retornou calmamente a mastigação do restante que estava em seu prato, causando o estupefatamento de todos (que se entreolharam), e deixando a mulher dele, engasgada a seco, apesar da comida.

A partir daquele momento, ninguém ousou continuar com as tagarelices costumeiras, e o almoço transcorreu em um clima; que eu não ousaria a chamar de velório, pois se tratava de um almoço, contudo, digamos: “mais ameno”.

E, eu, além de descobrir que Nonato não era mudo, passei a admirá-lo, pela calma e elegância com que ele resolveu a situação. Que Deus o tenha!

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