Crônica de Um Peladeiro

Por Gil DePaula

P2 Crônica de Um Peladeiro

Escrevo esta crônica para homenagear os peladeiros do Brasil, especialmente, aos meus amigos, que não dispensam a tradicional pelada.

Era meados de 1970, mais precisamente dia 21 de junho, e o Brasil acabava de sagrar-se tricampeão mundial de futebol. O ribombar de fogos de artificio, explodindo nos céus, era expressão maior da alegria vivida por um povo, em sua maioria, tão humilde, que aquela conquista atingia o ápice dos seus devaneios lúdicos.

Não importava se o Brasil vivia sob uma ditadura. Não importava a inflação galopante, que já minava o poder de compra dos brasileiros. Não interessava se guerrilheiros matavam ou morriam, ou se o presidente Médici, por trás dos seus olhos, verdejantemente claros, vertia sangue. Afinal, o Brasil era tricampeão de futebol.

Noventa milhões em ação
Pra frente Brasil, no meu coração
Todos juntos, vamos pra frente Brasil
Salve a seleção!!!

Esse, naquele momento, tornou-se o hino do Brasil, “oficializado” pelo governo e adotado pelo povo, fazendo-se ouvir nas residências e nas ruas, entre abraços, sorrisos e lágrimas. Afinal, o Brasil era tricampeão de futebol.

Eu, que já gostava de uma pelada, nos autos dos meus 12 anos, decididamente, sonhei (se é que em sonhos se têm uma decisão) em tornar-me jogador de futebol. Para isso, algumas “ferramentas” eram necessárias: bola, chuteira e depois, um time. Com muita insistência, junto ao meu pai, consegui a bola e a chuteira. Por acaso, entrei no meu primeiro time, capitaneado por um amigo, chamado Toni Romanini – um goleiro de respeito -, que até hoje atua nos gramados peladeiros.

A partir de 1970, frequentei os mais diversos campos de futebol. Campos de terra, campos de areia, gramados e cimentados (futebol de salão). Disputei torneios e campeonatos. Porém, sempre fui um apaixonado pelas peladinhas de rua, aquelas, em que muitas vezes, as traves são representadas por duas pedras. Uma confissão sou obrigado a fazer: sou um “fominha” pela pratica do futebol. Do futebol não, da pelada (sejamos mais vira-latas, pois nunca ganhei dinheiro com a profissão do Pelé).

Ao longo desses anos de peladeiro, convivi com vários tipos: o driblador, o artilheiro, o fominha, o perna-de-pau, o encrenqueiro, o falador, o pacato, o organizador, o chato, o briguento, o “mão-de-alface” e o muralha. Entretanto, existe algo em comum em todas essas figuras: o amor pelo futebol de várzea. Jogado de domingo a domingo, precedendo a resenha regada à cerveja e as intermináveis discussões sobre quem jogou mais ou foi culpado pela derrota do time em que atuava.

O verdadeiro peladeiro é uma figura única; dentro de campo se mata pelo time, dentro de campo não vê cor do companheiro ou adversário, pela pelada se indispõe com sua mulher, foge da escola e se necessário – para garantir a vitória do seu time – abandona até o trabalho.

Uma afirmação posso fazer: enquanto houver uma bola, um campinho de terra, ou areia na praia, haverá um peladeiro. Haverá um menino correndo atrás da “redonda”, para chutá-la e fazer gols reais ou imaginários. Gols que se lembrara pelo resto da sua vida.

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