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Feio… Era Pouco – Baseado na Obra de Nelson Rodrigues

Por Gil DePaula

 

Amigos leitores, a história que vocês irão ler a seguir é uma recriação de um conto de Nelson Rodrigues chamado Feia Demais. Se me atrevo a recontar essa história, somente se deve a minha profunda admiração pela obra do autor.

 

Feio… Era Pouco

Há alguns anos, ela havia sido eleita Miss Brasília. E realmente era uma belezura. Daquelas mulheres de deixar qualquer homem babando. Assim que entrou em casa jorraram as perguntas:

– Minha filha – perguntou a mãe. – é verdade que você está namorando aquele rapaz?

Olhando para uma das irmãs não teve dúvidas de quem a mãe falava.

– Estou. – Afirmou sem nenhum constrangimento.

Porém, um silêncio constrangido se fez, quebrado pela indignação:

– Não acredito. – Você enlouqueceu!

– Qual o problema? Vocês não querem me ver feliz?

– Mas ele é medonho. Um verdadeiro tribufu. – responderam em uníssono. – Você é linda. Já foi até Miss Brasília. Qualquer galã de novela adoraria namorar com você.

A moça ficou vermelha de raiva. Teve vontade de “subir nos tamancos”. Gritou que a família era de preconceituosos, que eles eram pessoas incapazes de enxergar a beleza de quem não gostavam, etc., etc.

– E saibam que ele me pediu em casamento.

– O quê!? O quê!? – se desesperavam. – Você mal conhece esse rapaz. Tirou isso da cabeça dele, não tirou?

– Pois agora eu me caso. Me caso! Me caso! – disse, cada vez mais indignada.

E foi para o quarto com o celular na mão disposta a avisar ao amado que aceitava o pedido de casamento.

A Decisão

Mais tarde, quando o pai chegou em casa, o clima era de velório. Despejaram sobre ele, mãe e filhas, todo o horror do acontecimento.

Das três filhas, a mais amada pelo pai, além de ser a mais bonita, era Paloma. No entanto, este se mostrou sereníssimo:

– Isso passa. – disse ele. – Se não passar, o que fazer? Ela é maior de idade. Suas escolhas, boas ou más, terão um preço a ser pago. – No fundo, acreditava que a filha acabaria por enxergar a feiura do pretendente a mão dela.

Porém, a princesa estava realmente apaixonada pelo sapo (era assim que se referiam a ele pelas costas). Sendo ela geniosa; mais do que nunca estava disposta a se casar.

O pai, no outro dia, acreditou que tinha a solução para fazê-la voltar a realidade e mandou ver no WhatsApp: “Filha vamos almoçar juntos”? Convite aceito, com a ressalva de que não poderiam falar mal do futuro marido dela.

– Então? Está mesmo decidida a se casar?

– Estou! E será o mais breve possível.

– Mas ele, além de f… Quer dizer, ele é pobre! Nós te criamos com muito esmero. Você nunca passou por dificuldades na vida. Estudou em bons colégios. Sempre se vestiu muito bem. Dê um tempo pra ver se ele pelo menos consegue um bom emprego. Afinal, você sempre teve seus sonhos realizados, não é à toa que chegou a ser agraciada com o título de miss Brasília.

– Tem razão papai. E, agora, meu único sonho é me casar com o homem que eu amo. Quero ter filhos com ele. – determinou, deixando o pai a pensar com quem essas criaturas seriam parecidas.

À noite, no motel, extasiada (mais uma vez) pela demonstração de Clóvis do grande amante que ele era, Paloma se enroscava em seu pescoço e sussurrava em seu ouvido:

– Caso meu dengo. Caso com você nem que seja para morar debaixo da ponte. – disse, deixando o rapaz feliz e pronto para mais uma rodada de amor.

O Casamento

O fogo da paixão, que consumia os dois, lhes enchiam de coragem para enfrentar os desafios da vida. Paloma tinha certeza que logo conseguiria um bom emprego. Clóvis passou em um concurso de nível médio e aguardava ser chamado, enquanto continuava realizando seus bicos de motorista do Uber. Paloma acreditava que o amor supera tudo.

Então, casaram-se.

Depois que Clóvis entrou, a igreja, lindamente ornada, recebeu a noiva, que em sua esplendorosa beleza, ofuscou os lindos ornamentos, resplandecente que estava em seu vestido de noiva, causando olhares de admiração em homens e mulheres. Algumas teriam ficado com uma pontinha de inveja, se não fosse pelo noivo.

A entrada de Clóvis também havia sido apoteótica, mas pelos motivos contrários aos da noiva. Nem o sorriso escancarado de orelha a orelha conseguiu torná-lo um pouco menos feio. Esse cara deve ter muito dinheiro, pensaram aqueles que não conheciam Clóvis.

A família conformava-se: “Ele é um bom rapaz”.

Três meses depois, no dia em faziam aniversário de casamento, foi que Paloma se deu conta, e a verdade, tal qual um raio, a fulminou, escancarada pela imagem do marido prostrado diante da televisão, com o corpanzil largado no sofá, uma lata de cerveja na mão, a barriga proeminente se destacando, enquanto abocanhava uma asa de frango, e a gordura escorria pela boca cheia, traçando uma trajetória que descia pelo queixo e se espalhava pelo pescoço. Quando a viu a lhe observar, Clóvis sorriu, sem dar-se conta da cara de asco que a mulher fez.

O Arrependimento

Na academia, homens musculosos, sarados, desfilando beleza e saúde lembravam Paloma onde havia “amarrado o jegue”. O jegue, nesse caso, atendia pelo nome de Clóvis. As comparações se tornaram inevitáveis.

Eu não estava no meu juízo normal! Não, não estava! Pensava e pensava.

Lembrava de um elogio que recebeu de um colega do trabalho, um garotão forte e mais novo que ela:

– Dona Paloma, não me leve a mal, mas a senhora hoje está deslumbrante.

Será que ele vai querer sexo hoje? Conjecturava Paloma, se preparando para a desculpa que iria dar quando fossem para a cama. O pior: o marido era insaciável. Mal deitavam-se e ele estava pronto, sempre com aquele hálito de cerveja, aquela barriga que já atrapalhava que ele enxergasse suas próprias partes intimas, sempre dispostas para o sexo. Pior, porém, eram os beijos. Agora entendia o porquê do apelido de sapo. Aquela boca enorme, visguenta da criatura feia, lhe incomodava mais do que as relações sexuais. E ele tinha um fascínio enorme por beijos, longos e babados. Beijos que davam a ela vontade de correr e lavar a boca.

– Um homem sabe que é bonito ou feio, não sabe?

Passou longe dele a insinuação.

– Eu tenho um amigo lá do trabalho, o Eurípedes, que é feio que dói, mas se acha o rei da cocada preta. Esses dias contou pra todo mundo ouvir que transou, ao mesmo tempo, com duas gatas que conheceu em uma boate. – Pondo se a rir, tal qual escuta-se a piada mais engraçada da vida dele.

Ela quase cedeu ao desejo de perguntar a ele qual dos dois era mais feio, ele ou o amigo.

Diante a insuportável presença do marido, imaginava-se ao lado de um homem bonito. Um homem que ela pudesse apresentar a todos com orgulho. Um macho que provocasse a inveja das suas amigas por pertencer a ela. Não aquele nanico do marido. Não aquele nanico barrigudo, que quando as amigas sabiam que era seu esposo trocavam olhares de incredulidade. Definitivamente, precisava arranjar um homem de verdade.

Como o desejo geralmente vem acompanhado da oferta, por aqueles dias, começou a trabalhar na mesma empresa em que Paloma trabalhava, um antigo colega da época da adolescência. O colega, para a grata surpresa da moça, havia se tornado um homem alto e forte. Não era daquelas belezas com que ela sonhava, mas o rosto era másculo e algumas das suas colegas o consideraram bonito.

Flávio, o rapaz em questão, era um namorador com ares de cafajeste. Na adolescência foi um garoto tímido, que se encantou e manteve um amor platônico por Paloma. Bem querer esse, que nunca teve coragem de revelar. Entretanto, o amor não confessado, não passou despercebido aos olhos da moça. Logo, as conversas entre os dois passaram a ser rotineiras. Depois, um convite para almoçar, prontamente aceito por ela. Em outro dia, um jantar em um restaurante bem sofisticado, regado a vinho de boa qualidade. Quando entraram no carro para fazer o caminho de volta, o rapaz roubou-lhe um beijo. Ela, inicialmente, mostrou-se indignada. Depois, desculpando-se para si mesma, contemporizou: beijo não é traição.

Quando chegou em casa lhe batia no peito uma pontinha de arrependimento. Mas ao ver o marido de cueca na frente da televisão, e a maldita latinha de cerveja sendo levada a boca (nem pra pegar um copo, o miserável servia), todas suas desilusões reprimidas vieram à tona e ela teve vontade de gritar que ele era feio, um verdadeiro porco, porco não… sapo. Sim! Ele era um sapo. Sapo gordo e molenga. Desejou atirar na cara dele que conseguira um amante. Vigoroso e bonito. Que a levava em restaurante chique e pedia vinho importado. Que a beijava sem babar. E para completar, era cheiroso. Entretanto, apesar de um pouquinho alta por causa do vinho, somente soltou:

– Eu lhe odeio! Eu lhe odeio seu tribufu! – E se trancou no quarto.

Flávio, meio embasbacado, ficou estarrecido com a reação da esposa. Ele havia notado que ela já não era a mesma. Não mais sussurrava em seu ouvido. Não tinha paciência para conversar com ele. Sexo, a mais de mês não rolava, e o pior; nem um beijinho ela permitia. Alguns amigos disseram a ele que havia mulheres que enjoavam do marido, principalmente na gravidez. Mas o caso não era esse, tinha certeza. Talvez ela estivesse lhe traindo. Aqueles cursos que ela dizia fazer à noite, poderiam ser desculpas para que exercitasse livremente sua infidelidade, desconfiava. Definitivamente, necessitava arranjar uma amante. De forma alguma, conjecturava ser traído e não dá o troco.

A Hora da Amante

Cinara, era daquelas moças que poderiam ser consideradas bonitinhas, todavia, era tão apagadinha, que parecia não ter outras qualidades que não fosse aquele rostinho delicado. O modo como se vestia parecia copiado das moças dos anos 50, principalmente a saia plissê. E o penteado, reforçado pela franja, somente corroborava para torná-la, ainda mais, uma figura sem brilho.

Contudo, a secretária do dr. Mario, possuía uma admiração secreta pelo auxiliar administrativo; o sr. Clóvis. Perguntava-se o que teria ele de tão extraordinário, que fizera uma miss se apaixonar e casar-se com ele. Por trás daquele amarelidão de Cinara, havia uma mulher voluptuosa, que se deixava levar pelas mais estranhas fantasias. Aquilo era sexo. O que prendia os dois somente poderia ser sexo, presumia e fantasiava: Ele é bom de cama, e deve ser safado. Melhor do que um homem bonito é um homem safado. Em seus devaneios, si via nos braços do marido de Paloma.

Clóvis, repentinamente, percebeu que Cinara existia, talvez levado pela necessidade de provar para sua mulher, que o desprezo dela teria consequências. A traição da qual se julgava vítima, mexia com seus brios. Estava ferido em seu orgulho de homem. Vá lá, que ele não era nenhum Gianecchini, mas ele possuía suas qualidades. Tudo aquilo, queimava-lhe as entranhas. Ele daria o troco.

O olhar mortiço com que Cinara o brindou, quando se encontraram no elevador, não mais passou despercebido.

Clóvis sabia que Cinara sairia para o almoço, somente depois que o dr. Mário se retirasse. Próximo ao meio-dia, passou a monitorar os passos, tanto da secretária, quanto os do chefe. Quando percebeu que ele se retirava, esperou alguns minutos e, atrevidamente dirigiu-se à moça:

– Venha comigo. – disse a ela, praticamente arrastando-a para a sala do dr. Mário. Ela, mansamente, deixou que ele a conduzisse.

Os Infiéis

O plano vingativo estava delineado em sua mente; transaria com a secretária onde morava, na mesma cama em que muitas vezes fez Paloma gemer de prazer. Quando ele contou para Cinara o que desejava, ela explodiu em fantasias. Aquela ideia de transar no mesmo leito, na qual a miss se entregava a Clóvis, despertou imensamente sua libido (Freud ficaria fascinado). Havia um certo receio por parte dela, mas esse temor somente aumentava a febre que ela sentia entre as pernas. Combinaram, que na sexta-feira vindoura, ambos dariam uma desculpa e não trabalhariam à tarde. Não se deram conta que aquela era uma sexta-feira 13 – se é que fossem supersticiosos –, do mês de agosto.

Há várias semanas, Paloma chegava em casa depois das 22h, portanto, teriam a tarde e parte da noite livre, afirmou Clóvis para Cinara.

Amaram-se com sofreguidão. Ele superou as expectativas da moça. Ela nunca se sentiu tão realizada sexualmente, quanto naquele momento. Jamais, havia atingido o ápice do prazer tantas vezes. Ela acertara: melhor que um homem bonito, é um homem bom de cama. Para o almoço solicitaram um Uber Eats. O vinho estava guardado na pequena adega do apartamento. Almoçaram, beberam, fizeram amor, beberam, transaram e dormiram.

A Tragédia

A indisposição tomou conta de Paloma na manhã daquele dia 13. Quando foi ao trabalho, já não se sentia bem. A madrugada, mal dormida, teve sua origem na noite anterior, após a briga com o amante. Às 14h30, avisou ao seu supervisor, que não teria condição de continuar trabalhando, por causa do estado em que se encontrava. Decidiu que iria para casa, porém, antes, passaria em uma farmácia.

Ao descer do elevador sentiu um estranho pressentimento. Por isso, abriu com cautela a porta do apartamento, entrando, julgou ouvir um ressonar vindo do quarto. Aproximou-se, cautelosamente, e a cena que viu, a deixou paralisada por alguns segundos. Na cama, Clóvis e uma mulher, nus, dormiam esparramados. Recuperou-se do susto inicial, foi até a cozinha e pegou uma faca, dessas que os churrasqueiros gostam de usar. A primeira facada foi dada na garganta de Clóvis, que com precisão cirúrgica lhe cortou a carótida, fazendo o sangue jorrar de forma semelhante a explosão de uma represa rompida. Os gritos desesperados de Cinara, segundo testemunhas, foram ouvidos em vários andares do bloco. Ela morreria no hospital em consequência das quatro estocadas que lhe desferiu Paloma, uma mulher que jamais aceitaria ser traída.

Epílogo

A notícia que recebeu na ala feminina de penitenciaria de Brasília, trazida por uma amiga, fez com que Paloma entendesse o porquê de Flávio nunca a ter visitado. Ele, há alguns dias “saiu do armário”; estava amasiado com Winter, o supervisor da empresa na qual os três foram colegas.

 

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Nelson Rodrigues nasceu no Recife, PE, em 1912, e morreu no Rio, em 1980. Sua obra teatral e escrita em jornais e revistas, já está consagrada.

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Um comentário

  1. Ola.

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