NEGRINHO – Uma História do Livro “O Baú das Histórias Inusitadas”

 

NEGRINHO

 

Bayo em Iorubá significa “alegria é achada”, mas se a vida trouxe alegria para Bayo Suarili, esta terminou aos seus 16 anos. Há apenas algumas horas acaba de desembarcar de um navio negreiro. Cansada, sedenta, magérrima, fedendo e com várias feridas purulentas espalhadas pelo corpo causadas pela infestação de piolhos e lêndeas que nelas depositaram seus ovos, sabia que a tristeza, agora, era seu verdadeiro nome.

Trocada pelo pai por um par de tapetes, atravessou o Atlântico, de um continente a outro, e perdeu a noção do tempo. No começo, tentou, pelas refeições que recebia, contar os dias, mas depois se perdeu na sua estatística, bem como a comida mingou. Com ela, no porão fétido do navio negreiro, vinham mais 373 africanos, retirados à força de vários lugares da África. Depois, este número começou a diminuir, pois se tornaram habituais os sangramentos das gengivas, os vômitos, as diarreias, as febres e as mortes. Alguns eram retirados ainda vivos, mas nenhum voltava.

Agora, nos enormes galpões de refresco do cais do Valongo, no Rio de Janeiro, ela e o bando aguardavam destino, centenas de cativos que até o final da vida seriam escravos. Sorte melhor teriam os que morressem primeiro.

Os galpões do Valongo serviam para a comercialização da mercadoria humana trazida pelos capitães escravagistas ou do mato. A maioria já tinha destinação certa, o que não era o caso de Bayo. Já lhe haviam dado água e uma gororoba feita de fubá e sal, que só lhes aumentava a sede. Entre seus trapos se via a cabeleira negra encarapinhada que se formava abaixo da barriga murcha. Um pouco acima, os seios pequenos e adolescentes contrastavam com a jovem figura que a esqualidez e a tristeza a tornavam grotesca. Não compreendia a estranha fala dos estrangeiros com suas muitas palavras, porém, já conhecia o poder do relho que com sua ponta de metal feria até sangrar. Menina-moça que até ontem brincava imitando os trejeitos e os sons dos animais de sua terra, agora se fazia mulher, enquanto esperava para ser adquirida.

A “feira” começou no dia seguinte. Corpos foram pesados, dentes verificados, músculos apalpados, cabelos cutucados. Mas quando Bayo foi comprada, só restava à venda ela e um velho negro, pois o interesse maior era para aqueles com condições de trabalhar nas ricas lavras de ouro, de Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso, deixando a Coroa Portuguesa feliz.

Depois de algumas horas, Bayo Suarili foi finalmente comprada.

***

Frederico Ruschel, estancieiro da cidade de Tapes (Rio Grande do Sul), viu na negrinha atônita uma oportunidade de bom negócio. Já tinha visto muito africano chegar ao mercado em péssimas condições físicas, e depois de alimentados regularmente, adquirirem novas forças, serem muito bem aproveitados no eito e nos trabalhos domésticos. Retirando o boné e passando a mão pela cabeça que um dia foi dona de uma vasta cabeleira loura, aproximou-se de Bayo e a examinou com curiosidade. Sara, sua mulher, estava grávida, e desta vez parecia que a criança iria vingar, pois já estava entre o sétimo e o oitavo mês.

Possuía apenas três escravos, um já bem avançado na idade. A sogra que poderia ajudar a cuidar da mulher e do filho vindouro falecera há alguns meses. Então, comprou e levou Bayo para o Rio Grande do Sul. Tinha pouco mais de um mês para colocá-la em condições de cumprir a tarefa.

Ruschel era um sovina, que amava sua prataria e escondia moedas de ouro. Era capaz de negar água a um viajante, e nunca hospedaria ninguém. A um pedido de empréstimos se ria. Se houvesse insistência desacatava o pedinte. Por isto, não possuía um amigo que o ajudasse, ou mesmo para companheirismos. Sua maior paixão, até o filho nascer, era um garanhão tordilho negro.

Um velho escravo – Osakwe Benin – adquirira por uma bagatela, após o cativo já desgastado não cumprir a contento com suas funções de reprodutor. Porém, foi ele quem ensinou o idioma português para Bayo, bem como lhe botou um filho na barriga.

Oito meses apenas se passaram da chegada de Bayo, mas a moça já conseguia entender a língua lusitana, bem como se fazer compreendida nela. As tarefas da casa, como também cuidar do recém-nascido, ficaram como seu encargo, visto que, Sara Ruschel, teve problemas durante o parto, e sua saúde que já era debilitada piorou, mal conseguindo levantar-se da cama.

Bayo ia dormir sempre tarde, alquebrada, por sorte era jovem. Frederico Ruschel era mau com os escravos, porém, apenas uma vez levantou o chicote para dar-lhe um açoite. Contudo, algo inusitado aconteceu: ela chamou por seu pai Oxóssi, e por mais esforço que o estancieiro fizesse seu braço não lhe obedecia. Como remédio, gritou e ordenou que sumisse da sua frente, e ajuizou que estava como algum problema de saúde.

O estranho fato intrigou Bayo, e naquela noite rezou mais do que nunca a reza para Oxóssi, aprendida ainda no navio negreiro:

Osoosi!

Awo Òde Ijà Pitipà. Omo Iyá ògúm Oniré. Òsoosì Gbà Mí O. Òrìsà A Dínà Má Yà. Ode Tí Nje Orí Eran. (…………………………..)

Bí O Bá Nbò Láti Oko. Kí O Ká Ilá Fún Mi Wá. Kí O Re Ìréré Ìdí Rè.

Má Gbàgbé Mi O,

Ode Ò, Bàbá Omo Kí Ngbàgbé Omo.

 ***

Osakwe Beni desde os dezessete anos possuía fama de bom reprodutor. Fama que o levou a ser disputado por vários fazendeiros ao longo de quase trinta anos. Estimava-se que fizera mais de setecentos filhos. Das mulheres perdeu a conta, pois tinha dia que chegava a cobrir quatro, em qualquer uma das seis fazendas por onde passou.

Contava oito anos que o velho garanhão havia deixado suas funções. Logicamente, não possuía o ímpeto físico e sexual da juventude, todavia, o fogo da carne não lhe abandonara. Depois que Bayo ganhou cor e vida, a proximidade com a escrava lhe atiçou o desejo. Além da moça não o querer, como já havia demonstrado, seu amo já havia deixado claro que ninguém poderia deitar com a escrava. Todavia, a compulsão sexual foi mais forte que seus temores. Percebendo que a moça não cederia voluntariamente, num libidinoso rompante, tentou tomá-la a força. Bayo, então gritou, esperneou, e panelas, pratos e copos caíram para todos os lados, como se vida própria possuíssem. O fato assustou Osakwe que se afastou assustado apostando em bruxaria. A escrava nada disse a seus senhores, e consertou a bagunça como pôde.

Entretanto, o velho reprodutor não desistiu. Certa noite invadiu o borralho onde a cativa dormia, e antes que ela o percebesse a montou. Com uma das mãos segurou firme em seu pescoço, e com a outra lhe arrancou os panos que a cobriam. Quando ele a penetrou, Bayo sentiu suas partes intimas em fogo, e sangrou como se quisesse apagá-lo.

Era o décimo-terceiro mês de vida de Natanael Ruschel, e terceiro da gravidez de Bayo. Quando os enjoos chegaram Sara Ruschel foi a primeira a perceber e alertou o marido. Ameaçada, Bayo com medo de perder a criança por conta dos castigos prometidos, contou a verdade. Três meses era sua conta da gravidez, porquanto, Osakwe Beni foi condenado ao tronco, para levar noventa flagelos de relho, aplicadas pelo próprio Ruschel. Suas costas, ombros e nádegas foram dilacerados. Após, seis dias de tratamento pela salmoura, não conseguia comer e a febre aumentou. No oitavo dia estava morto.

Veio o parto, e por quase dois dias Bayo sofreu, até que o estancieiro resolveu chamar uma parteira. A criança que estava atravessada conseguiu sobreviver, mas a escrava, não conseguindo resistir ao esforço e sangramentos, deixou o filho totalmente órfão. Ruschel comprou, então, uma nova escrava que recentemente havia parido, e a colocou para amamentar o menino.

Ao filho de Bayo, um garoto bonito da cor das noites sem lua, não se deu padrinhos nem nome. Por isto, só era chamado de Negrinho. Quanto a padrinho – assim que teve entendimento –, tomou por Oxóssi, após saber da devoção da mãe pela entidade africana. Aos oito anos era o responsável pelo pastoreio do gado dos seus senhores.

Natanael Ruschel herdou do pai toda maldade, que praticava abertamente contra o pequeno cativo. Assumia o papel de senhor, e se empenhava nas judiações. Fazia-o de montaria (apesar de ser mais velho), dava-lhe beliscões, cascudos e pontapés.

Entretanto, um dia passou a temer o Negrinho: era comum entre eles uma brincadeira chamada boi de carro, onde o garoto Ruschel, pegava um galho de goiaba, amarrava uma corda na cintura de Negrinho, e o açoitava para que o puxasse, simulando uma carroça puxada por bois. Após, meia hora da brincadeira, o filho de Bayo já não se aguentava mais nas pernas, contudo, seu senhorzinho insistia para que continuasse.

Uma revolta muda, aliada as dores das galhadas que recebia, tomou conta de Negrinho, e ele, empacando, gritou mentalmente por seu padrinho. De súbito, Natanael Ruschel saracoteia e seus pés flutuam abandonando o chão, para depois rodopiar sobre si e logo após se estatelar na terra batida. Quando se levantou saiu correndo gritando que ia contar para o pai, mas como Frederico estava viajando as queixas foram postergadas.

Conforme dito, o maior orgulho de Ruschel, até o filho nascer, era o cavalo tordilho negro, que ele acreditava não ter páreo por aquelas regiões, em beleza ou para uma boa carreira. Disputava boca a boca a primazia de seu animal, contra um da raça moura, do italiano Enrico Albertini, um estancieiro vizinho. Um dia resolveram sair da provocação e marcaram uma disputa entre os alazões, apostando mil e quinhentas onças de ouro. Uma condição impôs Ruschel; que os jóqueis não tivessem mais de doze anos, pois sabia da capacidade de Negrinho em montar um cavalo. Além do mais, o garoto já havia demonstrado sua habilidade com o tordilho.

No dia combinado, o local da disputa estava apinhado pelos tapenses. As apostas eram praticamente meio a meio, pois os dois cavalos possuíam fama de bons corredores.

Para o páreo, combinou-se a distância de mil e quinhentos metros, com partida e chegada ao mesmo local, após contornarem um pequeno açude.

No tiro disparado pelo juiz açoitam os animais, que pegam na carreira. Negrinho leva vantagem de um corpo, até os primeiros cem metros. Depois seguem emparelhados. Ora um, ora outro, coloca a cabeça na frente. A gauchada grita. Uns incentivam o tordilho negro, outros o mouro. E assim seguem. Restam duzentos metros, Negrinho pensa: se perco meu dono me mata, e toma açoite pro lado do tordilho.

Cinquenta, trinta, vinte, dez metros e o tordilho dá uma empinada, suficiente para o mouro colocar meia cabeça na frente e ganhar a disputa. Os que apostaram no negro gritam:

Empate! Empate!

Os outros:

Mouro! Mouro!

Alguns quase se pegam.

O juiz, gaúcho de fibra, mesmo tendo apostado no negro, confirma a vitória do mouro:

Quem perdeu pague! determina.

Frederico Ruschel, visivelmente contrariado, saca da bolsa as mil e quinhentas onças e as entrega ao italiano. Os que apostaram no mouro gritam efusivamente, comemorando os cobres a mais.

Para o avarento estancieiro perder as onças, foi como perder a própria pele, ou pior, a alma. Alguém tinha que pagar.

Chegando a sua casa, mal apeou, pegou Negrinho pelo pescoço, colocou-o no tronco e lhe deu uma surra de vara de marmelo. À noite levou-o ao alto de um pequeno morro, e lhe disse:

Dez metros restavam pra você ganhar a corrida. Portanto, você ficará pastoreando dez dias e dez noites meus cavalos. Comerá uma vez por dia e dormirá aqui.

Choveu, fez sol, choveu, geou e Negrinho que só tinha o poncho como proteção, pensava na mãe que não conheceu. Chorando pedia proteção ao padrinho Oxóssi, e mesmo com fome acabava por dormir, vencido pelo cansaço.

Na terceira noite, os guaraxains espantaram um manga-larga, que mal amarrado se desvencilhou e fugiu. Negrinho fatigado não percebeu. Veio o estancieiro e não encontrando o cavalo lhe deu nova surra, e ordenou que encontrasse o animal.

No final da tarde voltou o estancieiro. Vendo que o cavalo não fora achado, amarrou Negrinho em um formigueiro de dinoponeras gigantes, as temíveis formigas carnívoras, para que por elas fosse comido, e só foi embora depois que elas cobriram o rapaz.

Retornando no outro dia, para surpresa de Frederico Ruschel, Negrinho encontrava-se desamarrado, sem nenhuma marca de mordida e o cavalo pastando tranquilamente ao seu lado. Indagou ao rapaz o que aconteceu, recebendo como resposta que seu padrinho Oxóssi veio em seu socorro, deixando-o ainda mais intrigado, já que não acreditava naquelas besteiras de candomblé.

24 de junho, dia dedicado a São João. Dia de comes e bebes e de fogueira. Na noite anterior o malvado filho do estancieiro, Natanael Ruschel, foi até a coxilha onde os cavalos eram pastoreados, e sem que Negrinho percebesse deu fuga a todos. No outro dia contou ao pai que os animais haviam sumido.

Ruschel, mal acreditando foi até o local e constatou que, realmente, seus animais haviam fugido. Um pouco adiante encontrou Negrinho que, em desespero, procurava pelos cavalos, ordenou ao escravo que trazia junto, capturar o infeliz cativo.

***

Se havia um dia de festa para Frederico Ruschel, este era 24 de junho, que além dos festejos de São João, comemorava o seu aniversário. Nesse dia convidava alguns parentes, matava uma rês, preparava a canha e o chimarrão, e fazia uma imensa fogueira que aproveitava para assar a carne. Mas nesse dia a fogueira teria outra utilidade. Ela foi armada bem perto do tronco onde costumeiramente eram flagelados os escravos. E no local de suplício foi amarrado Negrinho. A intenção do raivoso estancieiro era assá-lo lentamente, porque achava qualquer outro castigo seria pouco diante da perda dos seus animais.

Oito horas da noite a imensa fogueira é acessa. Quarenta minutos depois ilumina a noite. Cerca de trinta pessoas se aquecem em sua volta, e se divertem com a agonia do negro preso, que por estar mais perto do fogo transpira muito. À medida que as labaredas aumentam, a aflição de Negrinho cresce com elas. A casa grande está a cento e cinquenta metros e brilha bem iluminada. Natanael e dois primos caçoam e se riem do Negrinho. Duas primas de Frederico começam a acreditar que aquela loucura vai ser levada a frente. E Negrinho queima de fora para dentro. Todavia, não pede clemência, apenas um lamento triste em forma de canção, ecoa dos lábios do martirizado:

Oquê arô!

Oxóssi guardião das matas

Oxóssi protetor dos homens

 Oxóssi destruidor da fome

Oxóssi pai da natureza

Seu afilhado chora

Seu coração queima

Sua pele derrete

Mas Oxóssi é terra, fogo e ar

E Oxóssi é liberdade

Oquê arô! Oquê arô!

Um homem vira para outro e pergunta:

Como esse negrinho ainda consegue cantar?

Repentinamente, o vento gelado que vinha do sul, sopra mais forte, porém, não tão frio e seu hálito parece se aquecer cada vez mais. Todos sentem o aumento da temperatura. O garoto Ruschel, bem como seus primos, perplexos observam as cordas se desvencilharem do escravo. Avistam Negrinho de braços abertos gritando: OQUÊ ARÔ! OQUÊ ARÔ! Enquanto a fogueira explode, transformando suas partes lenhosas em tochas acesas que como flechas certeiras são disparadas para todos os lados. As setas flamejantes caem sobre Natanael e seus primos, que desesperados em fogo, saem correndo.

O estranho bailado da fogueira prossegue e as achas inflamadas chegam à casa grande que pega fogo. A madeira parece ter criado vida, e um a um, as pessoas são atingidas indiscriminadamente. Gado, porcos, galinhas, bodes, patos disparam em todas as direções, deixando, ainda mais, a situação confusa e medonha. O ar parece soprado por mil bocas de dragões.

O tronco que prendia Negrinho se desprende do palanque ao qual estava fincado, sobe alguns metros e como guiado por mãos invisíveis, dirige-se num voo macabro para Frederico Ruschel e se crava em seu peito, quase o partindo ao meio.

O tordilho negro (o mesmo que perdeu a corrida), relinchando e levantando as patas dianteiras, se aproxima de Negrinho, que o monta em pelo, para em disparada adentrar a noite.

No outro dia, o cheiro nauseante de carne queimada persiste. Apenas cinco sobrevivem com terríveis queimaduras, Natanael Ruschel é um deles. O lado esquerdo do seu rosto ficará para sempre enegrecido, pela marca do fogo.

No Rio Grande do Sul, a história se espalhou, e, agora, quando algo é perdido não mais se pune o distraído. Apenas, se roga pela ajuda do NEGRINHO DO PASTOREIO.

 

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