O Capitão – Uma História do Livro “O Baú das Histórias Inusitadas”

BHI3 O Capitão - Uma História do Livro "O Baú das Histórias Inusitadas"

O estado de letargia era quase completo. E quase por quê? Porque sonhava com os avós Heike e Fredrick Gerhardt lhe contando sobre a marcha triunfante dos americanos na Alemanha derrotada e a partilha com os russos da pátria dileta, mas corrompida.

Falavam dos prédios e ruas destroçados pelos bombardeios, e do cheiro de pólvora e morte que empesteavam o ar. Falavam também da fome e da sede por causa da escassez de comida e água, da perseguição àqueles que compactuaram com o nazismo, e, também, dos suspeitos ou que caluniosamente fossem acusados de crimes de guerra.

Sonhava com o apfelstrudel* feito pela avó que lhe dava água na boca quando menino. Sonhando ainda, evocou a primeira vez que viu a Miss Blumenau que, mais tarde, seria sua esposa; e reviu, onírico, os filhos gêmeos que mal chegou a conhecer. Sonhava com a AMAN*, com a “revolução”. E sonhava com o general Golbery lhe dizendo: capitão, esta é sua chance! E agora despertava. Trinta e seis anos depois acordava para a vida e para uma nova realidade.

***

A segunda-feira começou agitada no complexo da ABIN* e certamente a causa não era a vitória ocorrida no dia anterior sobre a seleção Alemã que levou o Brasil a ser pentacampeão mundial de futebol. Em sua sede em Brasília herdada do antigo SNI, desde cedo, ouvia-se o burburinho entre os servidores que não tinham acesso aos níveis mais elevados. Especulava-se, sobretudo, o motivo do encontro naquela manhã entre o diretor geral da agência e o comandante da 11ª Região Militar, general de brigada Ernesto Branco, e vários outros militares, numa reunião que já perdurava por quase três horas. Sabia-se também, que o ministro da defesa, a qualquer momento, far-se-ia presente para se juntar à conferência.

O complexo da ABIN em Brasília ocupa uma área aproximada de 98 quilômetros quadrados fato que é de conhecimento público. Porém, dentro da estrutura existe o chamado Sítio Nix*, um subcomplexo secreto e subterrâneo que se estende em seis mil metros quadrados, divididos por três andares tendo seu acesso restrito aos que lá trabalham e aos poucos autorizados.

No primeiro subsolo se encontra um grande acervo com originais ou cópias de todo o material produzido na época da ditadura pelos militares e órgãos repressores. São milhares de dossiês sobre pessoas e fatos ocorridos, bem como a memória do que foi arquitetado e executado nos anos ditatoriais.

No segundo subsolo, encontra-se o verdadeiro cérebro da ABIN. Mais de dez centenas de supercomputadores adquiridos dos Estados Unidos e França monitoram a vida do nosso e de outros países, principalmente, latinos americanos. Mídias sociais, sites de busca e qualquer tipo de mensagem enviada pela internet são espionados e analisados. A maioria é descartada, todavia, vários dados são classificados pelo interesse que despertam, podendo ou não receber atenção especial. Também faz parte do complexo algumas centenas de computadores de menor porte que são interligados pelo programa “Constelação”, um software de última geração capaz de obter imagens ao vivo de qualquer câmera pública instalada em solo brasileiro.

Se o segundo é o cérebro, o terceiro subsolo pode ser considerado o coração, pois abriga um imponente laboratório científico que se estende por todo o andar, onde os mais modernos equipamentos produzidos no país (ou adquiridos de outros) encontram-se instalados. Reza a lenda – nos meios da inteligência e informação – a existência naquele laboratório da câmara criptocriônica que teria sido desenvolvida nos anos 60 por cientistas alemães radicados no Brasil. Este equipamento combinando a criptobiose* com a criônica* seria capaz da crio- preservação (preservação da vida). E é nele, que em 1966 sobre os auspícios do antigo SNI deu-se início ao Projeto Oráculo.

***

Gustavo Gerhardt se esforça para abrir os olhos, mas suas pálpebras parecem coladas. Acreditava que estivera dormindo e agora tentava se movimentar, porém, seu corpo não lhe obedecia. Após alguns instantes consegue deslumbrar através da turbidez que lhe toma conta da visão a claridade tênue de onde se encontra. Quinze minutos depois vislumbra as primeiras formas. À medida que sua visão se torna mais nítida percebe que a luz em sua volta aumenta, fruto do controle realizado pelo computador César que o monitora. A claridade cresce até lhe permitir ver as paredes semicôncavas e transparentes que o cerca. Será que morri? Pensa. Faz mais uma tentativa, mas não consegue se mexer. A confusão mental lhe é intensa. O coração excitado pelo sentimento de impotência dispara seus batimentos. Espasmos lhe percorrem o corpo. Bipes contundentes soam. Então, ouve:

Capitão Gerhardt! Por favor, se acalme! Em breve estará bem. O senhor está entre amigos.

César inunda a câmara criptocriônica de oxigênio. O capitão Gustavo Gerhardt mais uma vez adormece, porém, seu sono é diferente. É um sono de retorno à vida. São três horas da madrugada do primeiro dia de julho de 2002. Nas ruas, ainda se comemora o pentacampeonato do Brasil.

***

As linhas do destino, às vezes, parecem traçadas por deuses brincalhões que por simples galhofa aprontam com seus escolhidos. Definitivamente, Pedro Gerhardt tinha mais um motivo para pensar assim. Filho de militar, nunca conheceu o pai que foi dado como desaparecido no ano em que nasceu, provavelmente, em combate com guerrilheiros na Amazônia, comentava-se. Sua mãe, Nora Gerhardt, casou-se pela segunda vez com o professor Nestor Corrêa que dava aulas de música na universidade de Brasília e ajudou a criá-lo, junto com a irmã, dentro de um ambiente de pensamento democrático e livre.

Aos vinte anos, enquanto cursava direito, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores. Desviando-se, possivelmente, de qualquer direção que o genitor sumido lhe apontaria. Agora, aos trinta e seis anos de idade, ele seria um dos assessores do Ministro da Justiça do governo Lula que se iniciava em 2003. Quando ele, a mãe e a irmã receberam o convite do alto comando do Ministério da Defesa para que comparecessem a uma audiência com o ministro, julgaram que o assunto seria sobre Gustavo Gerhardt. Talvez, encontraram sua ossada, pensou. Mas, o motivo da convocação lhes deixou estupefatos. A história que lhes foi contada parecia advinda das fantasias de um escritor maluco.

***

E… Então capitão? Como se sente?

Da cadeira de rodas em que se encontra, Gustavo Gerhardt perscruta os rostos de cada um dos oito homens reunidos na longa mesa oval à sua frente. Segundo o que lhe informaram estão presentes o Ministro da Defesa, o Ministro do Exército, o chefe da casa civil da presidência, o diretor da ABIN, o Vice-Presidente da república, dois cientistas e o general de brigada Ernesto Branco. Já se passaram três dias que despertou da animação suspensa em que foi colocado em 1966. No início, sentiu-se confuso, mas aos poucos com auxílio do cientista Ezequiel Staden e do doutor Murilo Rosa, a consciência lhe foi restituída. Seus membros estavam atravancados e não se recuperavam com a mesma desenvoltura da mente, apesar da fisioterapia intensiva e dos exercícios físicos complementares aos quais o submeteram. Era como se de alguma forma (talvez, por causa das drogas que lhe foram aplicadas) seu cérebro, mesmo no estado de suspensão, não tivesse sofrido nenhum processo de retardamento, retornando à lucidez a “pleno vapor”.

As lembranças do passado lhe assomavam à mente como se os eventos ocorressem ainda ontem. Logo após, a eliminação do Brasil na Copa do mundo da Inglaterra, ele sentiu várias dores de cabeça. Pontos negros, outros brilhantes, figuras anuviadas ou em formato de balões lhe turvavam a visão, para, em seguida, a dor lancinante lhe tomar conta da caixa craniana.

Os médicos do exército diagnosticaram um tumor maligno que crescia rapidamente em seu cérebro, e que, certamente, o levaria à morte. Porém, disseram-lhe que havia um programa se desenvolvendo dentro do SNI para doentes terminais. Foi quando conheceu o Projeto Oráculo desenvolvido por dois cientistas alemães secretamente radicados no Brasil que foram cooptados pelas forças de repressão e inteligência. Deram o nome de Oráculo, pois se acreditava que os integrantes do programa “renasceriam” no futuro, portanto, teriam conhecimento do tempo vindouro.

Ainda me sinto um tanto confuso general. – explica-se o capitão, cujos olhos bem abertos não escondem a surpresa que tudo aquilo lhe causa. – Agora, constato que não estou sonhando. É verdade que passei trinta e seis anos dormindo? E quanto a minha doença? E a minha família? Meus filhos, minha mulher e meus pais, como estão? Por que ninguém até hoje não me disse nada? – dispara.

Capitão Gerhardt, eu lhe peço, fique tranquilo que tudo lhe será explicado. Hoje, o doutor Ezequiel Staden é o responsável pelo Projeto Oráculo. Ele vai lhe esclarecer como o programa se desenvolveu ao longo dos últimos anos.

Lentamente o doutor Staden retira os óculos. Passa o dedo polegar e o indicador sobre os olhos, levando-os ao encontro do nariz quase tocando as sobrancelhas. Pigarreia, limpa a garganta, recoloca os óculos e começa:

Capitão, o Projeto Oráculo teve como um dos idealizadores o doutor Peter Hans Staden, que como o sobrenome pode indicar era meu pai. O mentor de todo o programa foi o General Golbery, devidamente autorizado pelo Marechal Castelo Branco. Como todos nós podemos ver, o projeto foi um sucesso, pois o senhor está de volta, são e salvo, e não ficará com nenhuma sequela. Sua aparência não chega a ser a de um homem de quarenta anos, apesar de biologicamente estar com sessenta e oito anos. Ao longo desses anos, o senhor foi monitorado todos os dias pelas mais modernas tecnologias existentes. Médicos lhe acompanharam e as drogas que lhe foram injetadas cumpriram o seu papel, mantendo-o vivo. Seu corpo era alongado e massageado constantemente na câmara criptocriônica sem interferência humana. Outros detalhes lhe fornecerei mais tarde.

Tomando a palavra, Marcelo Queiroz, ministro da defesa se dirige ao capitão:

Bem… Meu caro capitão! – Seus filhos e sua ex-mulher estão bem, porém seus pa… – mal começa a falar e é interrompido por Gerhardt.

Como assim? Ex-mulher?

Meu caro! – repete o ministro pelo hábito de assim nomear as pessoas. – Nós não gostaríamos de entrar muito nos detalhes familiares, mas sinto que temos o dever de prepará-lo. Dona Nora casou-se novamente. O senhor oficialmente foi dado como desaparecido, conforme o que foi acordado entre a cúpula militar e o senhor em 1966. As demais pessoas, depois de algum tempo, passaram a considerá-lo morto, sua família não foi diferente.

Quantos anos têm que ela se casou de novo?

Não sabemos ao certo. Mas, todas as suas dúvidas serão elucidadas pelos seus familiares. Eles já sabem que você está vivo, e, com seu consentimento, a manhã mesmo virão visitá-lo.

E… Meus pais? Estão mortos? – pergunta com um misto de afirmação.

Sim! São falecidos!

Por um instante os participantes da reunião quedam-se em silêncio ao verem a tristeza estampada na face de Gustavo Gerhardt. Passado o momento de consternação o ministro prossegue:

Existe um detalhe sobre sua doença que o doutor Murilo vai esclarecer.

O doutor Murilo Rosa, especialista em genética humana, apesar dos seus cinquenta e seis anos, não possui um fio de cabelo branco, em compensação é de uma magreza extrema, herança da mãe. O avental que usa parece que o engole, deixando-o com uma aparência ainda mais delgada. Contrasta com os outros, em seus ternos ou uniformes bem limpos e passados. Quando fala sua voz sai tímida:

Sinto muito, dizer que houve um engano quando diagnosticaram sua doença. Pelos resultados dos exames que realizamos o senhor nunca teve um tumor. Seu problema é a chamada enxaqueca com aura que pode causar náuseas, mal-estar, vômitos e intolerância ao ambiente. Pode vir ou não, acompanhada de fenômenos transitórios de disfunção ou função inadequada de alguma área do cérebro que, na maioria das vezes, é uma área visual. A pessoa pode perder a capacidade de enxergar por meia hora, mais ou menos, ver luzes, ou perder o foco.

Doutor, me responda uma coisa. Salvo engano, mesmo em 66 o diagnóstico correto dessa doença era possível. Não era?

Antes que Murilo Rosa responda, o ministro intervém:

Capitão! Depois de todos esses anos, eu, particularmente, sinto a obrigação de lhe ser verdadeiro e esclarecer qualquer dúvida, ainda que venha a chocá-lo.

Pelas informações que temos, infelizmente, você foi usado como cobaia, mesmo não estando com nenhuma doença grave. Na época da AMAN, você era um aluno exemplar. Após sua formatura como aspirante a tenente, logo chegou ao posto de capitão, sempre demonstrando ser um militar na essência da palavra; dedicado, disciplinado e patriótico. Tudo indica que para a cúpula do projeto oráculo, na época, a escolha ideal era sua pessoa.

O silêncio reina na sala. O capitão Gerhardt entende que foi enganado. A revolta surda lhe toma conta do peito. Seus pensamentos giram em turbilhão. Esbraveja:

Fui traído! Miseráveis! Acabaram com minha vida! Desgraçados! Malditos desgraçados!

 ***

Da janela do sexto andar, num apartamento na 209, Gustavo Gerhardt observa o vai e vem dos carros no Eixão Sul. Algumas vezes vê um fusca, uma Kombi, mas do Simca Chambord, da Aero-Willys, da Vemaguet ou das lambretas nem sinal.

Quem diria que Brasília mudaria tanto? Como cresceu! Mas não foi só Brasília. O Brasil mudou! O mundo mudou! Os boatos eram verdadeiros: os americanos foram à lua. As televisões transmitem programas coloridos. As pessoas carregam e falam em telefones portáteis e sem fios. O muro de Berlin caiu. A União Soviética não mais existe. E o Brasil? Depois do fiasco de 66, já era pentacampeão de futebol.

Nora já não era a moça que conheceu. Pintava o cabelo, engordara, marcas de expressão e algumas rugas marcavam seu rosto. Mas continuava bonita e parece feliz ao lado do novo companheiro. Ela lhe tratara como a um garoto, talvez, pela sua aparência. Via nela uma mulher madura. Amava a esposa de ontem, esta versão atual o deixava confuso.

A filha, Renata Gerhardt, era cantora de rock numa banda que se intitulava Legião da Cidade, e tinha como codinome “A Russa”. Talvez por causa dos seus cabelos pintados de ruivo (achava que loiros eram mais bonitos).

Seu filho usava brinco (onde já se viu homem usar uma merda dessas?) e parecia – apenas o irmão mais novo. Além do mais, trabalhava para um partido de esquerda. Se o tivesse criado, jamais o deixaria ser um “socialista” como ele mesmo se chamava. O neto não conheceu, pois, sendo estudante, estava em intercâmbio na Europa.

Não sabia quem era esse “tal” de Lula que assumiria a presidência, mas, José Dirceu e Genoíno, conhecia bem. Só faltava esta: o país entregue nas mãos de comunistas e guerrilheiros, e um operário mandando em todo mundo. A revolução tinha fracassado. E, alguns amigos de caserna que reencontrou, creditavam boa parte da culpa ao general Golbery. Duvidava!

Nos jornais só se falava de corrupção e crimes. Na televisão não era diferente, com um agravante: os bons costumes foram esquecidos. Mulheres e homens nus desfilavam a toda hora em seus programas, muitas vezes, em cenas obscenas de sexo. O tema recorrente nas novelas era a infidelidade conjugal. A pederastia, bem como o lesbianismo eram condutas tratadas quase como normais nos folhetins televisivos. Daqui a pouco estariam fumando maconha e cheirando pó, pra todo mundo ver.

Quem diria? Caetano e Gil comportados? Um estava cotado até para ser ministro no próximo governo. Ainda que fosse o Roberto Carlos, que sempre foi um rapaz decente… Dava pra entender.

Pelo menos, o ministro lhe garantiu que seria aposentado como major, e lhe deram aquele apartamento para morar. Financeiramente conseguiria se sustentar.

O que você está achando de Brasília, pai? Pai? Capitão Gustavo…

Ô Renata! Desculpe-me! – responde, resgatado de seus devaneios. – Estava com o pensamento longe. O que é mesmo? Ah! Sim… Brasília. Brasília está linda. Nunca imaginei que esta cidade ficaria assim. – estranhava aquela moça lhe chamando de pai.

O senhor está bem? Quer alguma coisa?

Está tudo bem. Só não vejo sentido em ter que ir ao congresso falar com aqueles deputados. – retruca, com um vinco de preocupação na testa. – Não tem nada que eu queira dizer pra eles. Além do mais, a imprensa não me dá sossego. Já botaram a minha foto numa dezena de revistas e jornais. Aonde vou aparece um monte de curiosos me cercando. Ligam pra cá a toda hora insistindo em me entrevistar. Estou cheio desse assédio sufocante.

Desde que o pai “retornou” à vida, Renata cancelou alguns shows para ficar um tempo com ele, e o maior receio dela no momento era o de revelar sua homossexualidade. Temia a reação do genitor. Sempre amou aquele pai que não conheceu. Quando aprendeu a rezar suas primeiras preces foram para ele. Ainda bem que estava sem companheira. Talvez ele nunca descobrisse.

A mamãe quer reunir todo mundo no sítio domingo que vem para um churrasco. O Senhor se lembra da tia Amazilde? Ela está vindo de Goiânia pra lhe ver.

Vou pensar no assunto! – A verdade é que não tinha a mínima vontade de encontrar Nora com o professor. Quanto a cunhada só a conheceu no dia do casamento, provavelmente, estava curiosa, como tantos outros, para vê-lo e checar toda história.

***

Manchete da Revista Visão do dia 10/03/2003: “FUI TRAÍDO, PERDI MINHA FAMÍLIA, MEU FUTURO E MEU PAÍS SE TORNOU BIZARRO” (Entrevista com Gustavo Gerhardt)

Há 36 anos o então capitão Gustavo Gerhardt foi dado como doente terminal, e secretamente passou a fazer parte de um projeto que supostamente o manteria vivo até que a cura fosse possível. Surpreendentemente o capitão despertou em julho de 2002, e agora aceitou falar à revista Visão sobre a experiência pela qual passou, bem como sobre o Projeto Oráculo que o “trouxe” de volta à vida.

Major Gerhardt, é verdade que o senhor ficou hibernando por 36 anos? Se quiser pode chamar assim. Na verdade, fiquei em animação suspensa por quase quatro décadas.

Como sua família reagiu ao saber que estava vivo? Surpresos, apreensivos e depois felizes.

Soubemos que os seus pais faleceram nove anos depois do seu desaparecimento. Qual é o sentimento de não tê-los mais? Você já perdeu alguém que amava? Quando amamos uma pessoa os sentimentos são iguais: dor, saudades e frustração.

O senhor vem de uma família de militares, seu filho é advogado e filiado ao Partido dos Trabalhadores, um partido de esquerda. Sua filha é cantora de rock. O senhor está satisfeito com as escolhas deles? Desde cedo eu aprendi que são poucos aqueles que seguem os caminhos traçados por seus pais, no meu caso não havia como influenciá-los. Não gosto de comunistas, mesmo, aqueles pseudos marxistas. Rock não é meu estilo favorito, prefiro a bossa nova ou um tango cantado por Nelson Gonçalves. Renata, minha filha, me mostrou algumas músicas de sua autoria, gostei de duas que achei verdadeiros poemas.

Então, para o senhor o rock nacional pode ser uma alternativa musical? Só agora conheci esse rock brasileiro. Gostei muito de um conjunto aqui de Brasília chamado Paralamas do Sucesso. Segundo o que me disseram o pai do cantor também é militar.

Sua ex-esposa casou novamente. O senhor diria que ainda a ama? Nora é feliz com o atual companheiro.

O que o senhor acha de Brasília? Ainda é uma cidade bonita, mas está um caos. O número de carros já provoca engarrafamentos. Roubos, latrocínios, assassinatos, sequestros relâmpagos são comuns. A periferia está inchada e tem até uma cidade onde antes era um aterro sanitário.

Alguns deputados quiseram impedir que o senhor voltasse a receber o soldo… Olha! (interrompendo) Como antes de 64 têm muito imbecil nesse congresso que além de não fazer nada pelo povo enriquece na base de falcatruas. Esses elementos queriam aparecer, porém, a cúpula militar firmou posição no meu caso e apenas consegui reaver o que é de meu direito.

O que o senhor acha do atual governo? Têm muita gente ruim infiltrada nele, mais cedo ou tarde a bomba estoura.

Como assim? Índole se tem ou não.

O que o senhor pode nos dizer sobre o Projeto Oráculo? O projeto em si é bom e pode salvar muitas vidas. Além disto, a pessoa que desperta no futuro é uma fonte viva da história do passado. Essa pessoa, como testemunha ocular do que aconteceu antes, pode tirar dúvidas e esclarecer fatos que possuam uma conotação errada. Mas, particularmente para mim foi um desastre. Fui traído, me enganaram e me usaram como cobaia. Não vi os meus filhos crescerem, perdi os melhores momentos da minha família, bem como um futuro profissional que poderia ter sido brilhante. Saí de um mundo com valores morais bem mais elevados comparados a este. Em três décadas, ocorreu uma enorme inversão de valores em vários aspectos na vida do país.

E os amigos? Reviu algum? Tem algum companheiro de farda com que manteve contato? Dos companheiros antigos, apenas um que agora é general.

O que o senhor pretende fazer daqui por diante? Ainda não me decidi. Eu me sinto deslocado neste mundo bizarro, e revoltado com o anterior que me tirou tudo.

A entrevista do agora major da reserva Gustavo Gerhardt, desagradou ao governo e aos deputados que se manifestaram em condenações veementes. Alguns boatos logo foram divulgados dando conta que o major seria um torturador. Outros que toda a história não passava de uma grande farsa. Teve até parlamentar que sugeriu em entrevista a uma rede televisiva que fosse aberta uma CPI para investigar o major e o Projeto Oráculo.

Quando os congressistas tentaram criar uma comissão foram confrontados fortemente pelos militares, que nem de longe aventavam permitir tal coisa. Alguns ousaram bancar a ideia, mas à vista de uma crise que começou a se delinear, com a caserna falando duramente, recuaram.

Os meses se passaram e a curiosidade, bem como as polêmicas sobre Gerhardt foram paulatinamente diminuindo, já não mais sofria o assédio constante da mídia, no entanto, agravou-se nele outro sentimento. Agora, além de sentir-se deslocado, igualmente a solidão lhe batia fundo. Renata envolvida em suas apresentações Brasil afora telefonava uma vez ou outra. Pedro sempre envolvido com o governo, a família e o partido, há vários meses não o visitava. Nora, por educação, o convidou duas vezes para jantar, convite que recusou. O único amigo que lhe restou foi para a reserva e retornou a Porto Alegre, onde estavam suas raízes.

Passava os dias assistindo a filmes, principalmente os mais antigos. Às vezes, ia até a banca de revistas situada no meio da quadra, jogar um dedo de prosa com seu Nicolau. Tentou escrever um livro para narrar suas desventuras, contudo as palavras não saíram. Uma moça até se engraçou com ele, mas a pressa que ela demonstrou em levá-lo para a cama o desanimou. Várias vezes ao acordar achava que estava em 1966, e sonhava muito com Nora mais jovem e os filhos pequenos ao seu redor. Aos poucos o sentimento de revolta relativo ao passado, da mesma forma, manifestou-se no momento atual.

Às vezes, sentava na varanda do apartamento e bebericava algumas doses de uísque, porém, invariavelmente, entre uma e outra, a nostalgia assomava e com ela a dor que os escravos africanos, nos momentos sombrios de tristeza, chamaram de banzo. No silêncio do seu quarto o menino vencia o homem, e brotava o choro silencioso dos esquecidos.

A TV Brasiliense do Distrito Federal exibe aos sábados o programa Momento Vivo, onde os convidados são colocados sentados numa poltrona giratória no centro de um círculo formado pelos entrevistadores.

Num sábado chuvoso do mês de maio de 2005 o entrevistado é o major da reserva Gustavo Gerhardt. Naquele dia, além do apresentador que normalmente conduz o programa, estão presentes outros cinco que arguirão o entrevistado.

O apresentador Carlinhos Pop inicia cumprimentando a todos e apresentando o convidado, relembra parte de sua trajetória. Em seguida apresenta os demais componentes do círculo e formula a primeira pergunta:

Major Gerhardt é um prazer recebê-lo em nosso programa. Primeiramente gostaria de saber por que o senhor depois de mais de dois anos se recusando a conceder entrevistas aceitou o nosso convite.

— Boa noite! Depois de viver trinta e seis anos relegado ao esquecimento, e nos últimos dois anos, recluso no meu lar, estou aqui porque quero me despedir publicamente de todos. Quero deixar claro que amo minha família, e se faço o que farei é para deixar a mensagem que todos compreenderão.

Imediatamente, Gustavo Gerhardt retira a pistola que conduzia num coldre preso abaixo da axila esquerda, aponta para a cabeça e um estampido seco se ouve.

***

Centro Espacial Marcos Pontes (nome dado em homenagem ao primeiro astronauta brasileiro a ir ao espaço), Estação 16. Centenas de CPSV – Células de Plasma de Sustentação da Vida – flutuam ordenadamente. Em seu interior homens, mulheres e crianças, todos monitorados por JK*, o Biocontrolador com cérebro nanopositrônico de plasma que é o administrador do setor.

JK tem como uma das suas missões despertar os seres humanos que estão nas células em datas pré-programadas. O momento atual é o programado para a reanimação do paciente em latência da célula classificada como GG 2005.

Ondas metasônicas do cérebro de JK são enviadas à célula. O paciente deixa a latência e desperta. Meio confuso, aos poucos vai tomando consciência e percebe que está flutuando dentro de uma espécie de bolha altamente radiante. Acredita que está despertando num mundo espiritual e voltando à vida conforme os ensinamentos do espiritismo kardecista. Não consegue falar, mas pensa: Morri? Onde estou? Por ondas metapáticas JK lhe responde: O Senhor não está morto major Gerhardt. O senhor está no Centro de Sustentação da vida da Estação Lunar 16, ano terrestre 2239. Bem-vindo ao lar!

NÃO! NÃO! NÃAÃOO!

O grito telepático de Gustavo Gerhardt é tão contundente que por um milionésimo de segundo perturba o cérebro nanopositrônico de JK.

 

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