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O Preconceituoso – Um Conto do Livro “O Baú das Histórias Inusitadas”

O PRECONCEITUOSO

 

BHI2 O Preconceituoso – Um Conto do Livro “O Baú das Histórias Inusitadas”

 

A primeira demonstração que o pequeno Jonathan deu que seria um preconceituoso, ocorreu quando aos cinco anos seu pai o levou para o salão de barbeiro. No pequeno local onde, apenas, três barbeiros trabalhavam. Um jovem negro em torno dos seus dezoito anos, cortava o cabelo. Ao ver a tesoura agindo sobre o garboso “black power” do rapaz, despreendendo-se pequenos tufos que caiam no assoalho em montinhos triturados, o garoto sem meias palavras soltou:

Parece bosta de cabrito!

O pai, meio sem graça, mas achando engraçado, deu-lhe uma reprimenda condescendente:

Que é isso menino? Isso é coisa que se fale? Enquanto o rapaz se segurava na cadeira, para não responder que bosta de cabrito devia ter é a mãe dele entre as pernas, os outros clientes seguraram o riso.

Durante o curso regular do primeiro grau estudou num colégio frequentado pela elite de Brasília, onde não deixava em paz o Luizinho, que apesar de não ter tido sua iniciação sexual, não conseguia esconder suas tendências femininas. Zombava chamando-o de “Luluzinha”, bonequinha da mamãe e imitava os trejeitos do pobre rapaz, principalmente a maneira de correr com os antebraços levantados e as mãos fechadas viradas para frente.

Aos quinze anos quando cursava a primeira série do segundo grau, passou a conviver, pela primeira vez, com uma pessoa negra. Um garoto filho do embaixador de Angola que recentemente assumira o posto na embaixada de Brasília, passou a fazer parte da mesma turma escolar, e logo se tornou o alvo predileto das zombarias e discriminações de Jonathan.

O garoto angolano se chamava Odair Kulembe, e o sarcasmo zombeteiro começou pelo seu nome. Para complementar, o moço apesar de falar português, se enrolava com nossas expressões idiomáticas e não conseguia acompanhar a turma nas aulas. A cada erro cometido, Jonathan não perdoava:

Que crioulo burro!

E, nas aulas de educação física:

Esse Pelezinho não serve nem pra gandula!

E quase causou um incidente internacional quando Odair, enquanto fazia suas necessidades no banheiro da escola, escutou o desafeto dizer a outro garoto enquanto lavava as mãos:

Aquele angolano me recorda a chita do Tarzan! Foi um reboliço. O embaixador angolano queria que Jonathan fosse preso, mas o convenceram desta impossibilidade, pois as Leis brasileiras não puniam menores por injúria ou racismo. Acompanhado do secretário do ministro das relações exteriores do Brasil compareceu à escola e exigiu a expulsão do ofensor. Porém, mais uma vez foi persuadido, e se contentou com um pedido formal de desculpas – perante a turma – dos pais e do intolerante.

Aos dezessete anos Jonathan passou a fazer parte de um grupo que se denominava os New Nazis, e apregoava o ódio aos judeus, negros, homossexuais, nordestinos e aos portugueses que eram considerados burros (provavelmente por causa das anedotas). Entretanto, o bando teve vida curta. Por pura diversão queimaram um mendigo em frente à catedral de Brasília e acabaram presos. Dessa Jonathan se livrou, pois havia viajado para a festa de casamento de um primo.

Quando completou vinte anos, o pai cansado das suas aprontações não lhe pagou mais a faculdade. Um amigo da sua mãe que era dono de uma concessionária arranjou-lhe emprego de vendedor de carros novos.

Há apenas uma semana no trabalho, o jovem aprontou mais uma. Um casal norueguês que tinha cinco filhos, e que anteriormente havia entabulado negociação para adquirir um veículo, no dia de concretizar a compra levou um dos filhos que era adotado e negro. Sentaram-se o gerente, Jonathan, o senhor Munk e a esposa, enquanto o garoto Tore Albert Munk assistia a desenhos animados numa televisão na sala vip ao lado. Passados alguns minutos a criança vai ao encontro dos pais, que surpresos olham: abruptamente Jonathan se levantar de sua cadeira e ríspido confrontar o pequenino:

Ei! Você não pode ficar aqui dentro! Aqui não é lugar para você. Saia da loja!

E virando-se para o casal:

Estes negrinhos só servem para pedir dinheiro e incomodar os clientes! – sem se dar conta que falava com os pais do menino.

Indignado, Ronald Munk explode:

Com que direito você trata meu filho assim? Atordoado e gaguejante tenta se desculpar, mas engasga em sua própria sujeira. Porém, só vai lamentar a venda perdida.

Prestes a fazer vinte e três anos, Jonathan se casa com uma bela e loira jovem. A primeira filha do casal é uma menina que recebe o nome de Adália.

Dezenove anos depois, é um bem-sucedido empresário, e sua filha uma linda moça, inteligente, é o orgulho do pai. Porém, este amor logo será balançado, pois como diria o poeta:

Quem um dia irá dizer

Que existe razão

Nas coisas feitas pelo coração?

E quem irá dizer

Que não existe razão? ”

E, Adália se apaixona por um colega de faculdade chamado Carlos, tão negro como qualquer outro negro, odiado por seu pai.

E a paixão é avassaladora, com todos os componentes das tragédias românticas passionais: brigas, e choros, e juras de amor, e ameaças de morte. Carlos, que é orgulhoso, desde o primeiro momento não se curva diante de Jonathan, o que de sobremaneira o irrita. Enquanto Adália sofre a olhos vistos.

Não enxergando outra saída, os namorados aventam a possibilidade de uma fuga, que é compelida após uma explosão de Jonathan sobre Adália:

Sua louca! Você vai sair dessa faculdade e vai pra Austrália. Vai pra casa da sua tia Dora. Você acha que vou ter netos crioulos com aqueles cabelos pixains? Você já se imaginou fazendo trancinha nas mulatinhas que você teria com aquele tição? – E, blá- bláblá…

Então, fugiram! E Adália só teve notícias do pai alguns anos depois por uma estranha notícia publicada no Correio Braziliense.

Passados sete anos do entrevero com a filha, Jonathan adquiriu uma coccigodínea, ou seja, uma dor no cóccix que lhe causava grande dificuldade ao se sentar ou levantar. No começo relutou em ir ao médico, mas as dores venceram.

Nos primeiros exames foi detectado que o seu cóccix estava crescendo. O médico espantado com o acontecimento inédito diagnosticou que uma cirurgia no local poderia apresentar vários riscos, inclusive o de que Jonathan não pudesse mais andar, convocou uma junta médica, que resolveu realizar a cirurgia.

Durante o procedimento perceberam que qualquer tentativa de eliminar a protuberância que crescia em cima do cóccix, traria as consequências já ajuizadas, e, provavelmente, levaria o paciente a deixar de andar. Como o corpo não tinha condições de abrigar algo que crescia aceleradamente deixaram uma parte sem costurar, por onde o prolongamento se externaria crescendo, mas causando menos dor.

Após essa tentativa, novos exames foram realizados, inclusive por renomados médicos. Porém, todos chegaram à mesma conclusão: o estranho apêndice que continuava crescendo não tinha como ser amputado sem prejuízos definitivos para Jonathan, pelo menos as dores diminuíram.

Alguns dias depois, os médicos notaram que além do local da cirurgia estar totalmente fechado, o surgimento de alguns pelos sobre a excrescência tomava o formato de uma cauda. Um dos médicos cujo pai era veterinário convocou-o para dar sua opinião.

O doutor Antonino, renomado veterinário, após examinar a peça que se sobressaía do paciente deu o seguinte veredito:

Senhores, realmente isto aqui é um rabo. Mas pelos meus conhecimentos não é um rabo qualquer. É um rabo de burro!

 

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Livros de Gil DePaula

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