A maneira com que preconceitos, padrões, estigmas e outras anomalias se afirmam e moldam nossas percepções ao longo da história pode ser lenta e gradual, mas o resultado é sempre bruto e evidente. Um bom exemplo é o fato de que algumas pessoas históricas, em diversas áreas, são simplesmente consideradas brancas como que por decreto (e muitas vezes retratadas em pinturas, textos ou filmes, como tal), ainda que suas origens, ou mesmo suas evidentes feições e cor da pele sejam negras.
No Brasil, Machado de Assis é o exemplo mais claro: negro, o maior escritor do Brasil muitas vezes foi “embranquecido” em fotografias tratadas graficamente, em documentos ou textos, e sua origem racial não costuma ser sequer mencionada. Mas, na perspectiva global histórica, Machado está longe de ser o único nome a ter sido “reposicionado” de tal forma pela história.
Alguns nomes dessa lista podem surpreender, mas o fato é que todas essas célebres pessoas possuem origem negra, direta ou indiretamente, ainda que a maioria de nós jamais tenha sequer tomado conhecimento desse fato.
[toggle title=”Beethoven” state=”open” ][/toggle]
A feição, os cabelos e a cor de pele do compositor alemão Ludwig Van Beethoven fizeram com que ele fosse conhecido entre os amigos como “espanhol”. A região onde nasceu e seu histórico familiar mostram que Beethoven tinha sim sangue mouro em suas veias, possivelmente também como descendente de escravos emigrados de colônias holandesas. Não são poucos os livros e documentos que relatam não só as características físicas que o diferenciavam, como a história de sua família e região, apontando para esse rico passado.
[toggle title=”Clark Gable” state=”open” ][/toggle]
Um dos maiores galãs de Hollywood de todos os tempos, Clark Gable não somente não escondia como tinha orgulho de sua origem, tanto negra quanto de povos nativos americanos. Não por acaso, quando soube que os banheiros do set de E O Vento Levou eram segregados entre brancos e negros, Gable se recusou a seguir filmando até que todos fossem tratados iguais.
[toggle title=”Cleópatra” state=”open” ][/toggle]
A imagem que muita gente tem da grande rainha egípcia provavelmente é a de Elizabeth Taylor, que a interpretou no filme clássico de 1963. Mas a Cleópatra verdadeira era bem diferente da atriz e tinha a pele mais escura. Após a identificação do esqueleto da irmã mais nova de Cleópatra, pesquisadores austríacos concluíram que a rainha provavelmente tinha origem étnica mista, com traços de antigos egípcios, africanos negros e brancos europeus.
[toggle title=”Machado de Assis” state=”open” ][/toggle]
O escritor e fundador da Academia Brasileira de Letras foi, por muitos anos, “branqueado” em imagens que ilustram sua importante obra — em seu atestado de óbito, é descrito como “homem branco”. Mas tal afirmação vem sendo contestada: além do fato de ser neto de escravos alforriados, a recuperação de diversas imagens de Machado de Assis mostram que ele era negro.
Em 2019, a Faculdade Zumbi dos Palmares lançou a campanha “Machado de Assis Real”, que pede que uma nova imagem seja inserida nos livros e corrija o racismo propagado na literatura brasileira.
[toggle title=”Alexandre Dumas” state=”open” ][/toggle]
O autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo era filho de um general branco com uma escrava negra. Seus traços negros são evidentes em fotografias e registros, mas em muitas representações artísticas, Dumas é retratado como um homem branco – o que nublou historicamente a verdadeira origem do escritor.
[toggle title=”Jesus, O Cristo” state=”open” ][/toggle]
Apesar da importância do personagem, esse caso é difícil de debater. Jesus, segundo a mitologia, nasceu na África – como afirmam os evangelhos, numa região que hoje, especialmente depois da construção do canal de Suez, se tornou o Oriente Médio. Logo, a hipótese do Jesus loiro de olhos azuis é totalmente absurda e descartável – disseminada a partir da arte religiosa da renascença. Jesus compartilharia do fenótipo árabe, de pele escura.
Não há, na Bíblia, nenhuma menção específica aos traços de Jesus, citado somente como um “homem comum” – coisa que, na região, jamais seria loiro de olhos azuis.
[toggle title=”Betty Boop” state=”open” ][/toggle]
Ainda que nos desenhos que a tornaram famosa e inesquecível a personagem fosse branca, a Betty Boop “de verdade” era negra – ou ao menos a pessoa em quem ela foi inspirada. A cantora Esther Jones e sua interpretação no palco foi quem inspirou o cartunista Max Fleischer a criar a personagem Betty Boop. Esther passou a vida lutando pelos diretos da personagem que, em verdade (e em sua pele negra) ela interpretava no palco.
[toggle title=”Jacqueline Kennedy Onassis” state=”open” ][/toggle]
Seria, afinal, Michelle Obama a única primeira-dama negra a ocupar a Casa Branca? Segundo a história da família Van Seele, da qual Jacqueline Kennedy fazia parte, não. Um ancestral de Jackie foi o primeiro negro norte-americano a se tornar doutor no país, e seu pai era conhecido “Jack negro”, por sua pele morena.
[toggle title=”São Nicolau – Papai Noel” state=”open” ][/toggle]
Para além do caloroso debate sobre a existência ou não de Papai Noel, o personagem no qual o bom velhinho foi inspirado era, sem dúvida, de pele escura e origem negra. São Nicolau, o santo de onde a lenda foi construída, nasceu na região onde hoje fica a Turquia, em torno do ano 300 antes de Cristo. Nessa época, a região da Turquia era uma metrópole habitada quase que integralmente por povos de origem africana – assim como revelam os retratos criados de São Nicolau.
[toggle title=”Santo Agostinho” state=”open” ][/toggle]
Um dos mais importantes personagens da história do cristianismo, Santo Agostinho é também fundamental para os estudos básicos de filosofia e teologia. Pouco se fala, porém, das origens geográficas e raciais do santo, que nasceu onde hoje fica a Algéria. Pinturas e documentos mais antigos, porém, confirmam não só a importância e sabedoria como a cor da pele de Santo Agostinho.
[toggle title=”A Família Médici” state=”open” ][/toggle]
É impossível estudar o renascimento italiano – e basicamente toda a história da cultura ocidental – sem passar pelos Médici. O que a história não costuma muito lembrar é que a origem da família vem de uma mãe ítalo-africana, de origem moura, que se casou com um branco – que mais tarde se tornaria o papa Clemente VII. De qualquer forma, a mais importante família europeia da época era de origem negra, goste a história ou não.
[toggle title=”Rainha Charlotte” state=”open” ][/toggle]
O motivo pelo qual a Rainha Charlotte, da Inglaterra, até hoje não é admitida como de origem moura só pode ser um: isso faz com que a atual rainha Elizabeth II, assim como seus herdeiros Charles, e Williams sejam tecnicamente mestiços.
Mas o fato é que Charlotte era portuguesa, de uma família que sim começou com uma moura como matriarca. Um pintor do século XVIII, responsável pela pintura acima, foi morto em água fervente por registrar Charlote de forma “excessivamente realista” – o que define perfeitamente de que forma o racismo é disseminado ao longo dos tempos.
[toggle title=”Livros de Gil DePaula” state=”open” ][/toggle]
















